• Categoria: TDAH
  • Escrito por Dr. Marco A. Arruda
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TDAH no Adulto

 

O TDAH se manifesta precocemente na criança e pode persistir na adolescência e vida adulta.

Os principais estudos realizados sobre o tema mostram uma persistência do TDAH na vida adulta em 60 a 70% dos pacientes (4, 23).

Estes estudos são chamados longitudinais pois acompanham os pacientes por anos a fio, o que permite ao longo do tempo ter uma idéia da história natural de uma doença.

Se seis a sete de cada dez crianças com TDAH continuarão a apresentar o transtorno na vida adulta, o que aconteceu com as demais, ficaram curadas?

Exatamente, o que ocorre nesta situação é uma cura espontânea do transtorno, sem a participação dos medicamentos ou outras formas de tratamento. Esta resolução ocorre por conta do amadurecimento cerebral que se processa durante a infância e adolescência.

O cérebro não nasce pronto, sobretudo ao longo da primeira infância ele amadurece biologicamente, os fios se encapam num processo denominado mielinização.

Portanto, a mielinização e outros processos neurobiológicos de maturação cerebral podem corrigir o mau funcionamento do sistema dopaminérgico pré-frontal (como já vimos no capítulo das causas do TDAH).

No entanto, em 60 a 70% dos pacientes este processo não é suficiente e o transtorno persiste na vida adulta com características próprias.

Com a adolescência e o início da vida adulta os sintomas do TDAH sofrerão modificações em quantidade (intensidade) e qualidade (2, 38).

Hiperatividade-inquietação

A hiperatividade do TDAH, como é vista na infância, tende a reduzir e dar lugar a uma inquietação psíquica e motora: dificuldade de permanecer sentado por um tempo curto que seja, movimentos desnecessários de segmentos corporais (como o bater de dedos na mesa, o estalar de dedos, a perna que não pára, etc), fala excessiva e rápida ou a sensação de não conseguir relaxar.

O adulto com TDAH, por conta desta inquietação, normalmente evita atividades profissionais que lhe confinem em uma sala, prefere atividades externas que lhe permita movimentação, contato com várias pessoas e mudança freqüente de tarefas.

Falta de inibição comportamental

A falta de inibição comportamental pode se manifestar sob três aspectos principais: dificuldade de adiamento de uma resposta, dificuldade de interrupção de uma resposta em andamento e facilidade de distração.

As duas primeiras irão se manifestar através da impulsividade que pode provocar conseqüências desastrosas na vida adulta: falar em momentos inapropriados, interromper outras pessoas que falam, imprudência, infrações e brigas no trânsito, problemas conjugais, familiares, profissionais e sociais, além da inclinação para o uso, abuso e dependência de drogas.

Adultos com TDAH podem ainda ter dificuldade de interromper uma ação em andamento, por exemplo, parar de ver a televisão quando tem que ir para o trabalho ou outro compromisso.

A facilidade de distração afetará seu desempenho nas mais variadas situações do dia-a-dia.

Outras disfunções executivas

Vimos no terceiro capítulo o que são funções executivas. O TDAH no adulto se manifesta predominantemente pelo mau funcionamento destas funções, vejamos alguns sintomas decorrentes disso:

  1. Dificuldades de planejar, estabelecer prioridades e organizar-se para resolver problemas.
  2. Procrastinação. É o empurrar com a barriga, deixar para depois atividades que requerem atenção ou que são monótonas e repetitivas.
  3. Dificuldade de percepção do tempo. O portador de TDAH tem muita dificuldade de administrar seu tempo, com freqüência chega atrasado a compromissos e perde prazos.
  4. Perda rápida da motivação após um momento inicial de entusiasmo. Isto provocará falta de perseverança nas atividades do dia-a-dia.
  5. Baixa tolerância às frustrações.
  6. Falta de linguagem interior. Para o nosso bom funcionamento, percepção e resolução de problemas precisamos da linguagem interior, ou seja, do monólogo que ocorre dentro de  nós. Esta linguagem interior é deficiente no portador de TDAH e interferirá em outras funções executivas.
  7. Dificuldade de reconstituição. Reconstituição é a capacidade de recombinarmos informações do passado em novos arranjos com o objetivo de resolvermos novos problemas.
  8. Dificuldades de memória. A desatenção inevitavelmente provocará o mau funcionamento da memória. Como vimos na história introdutória do livro os esquecimentos podem comprometer o funcionamento do adulto com TDAH em todos os setores da sua vida: pessoal, conjugal, familiar, profissional e social.

As parcerias indesejáveis são freqüentes no TDAH e, no adulto, serão mais facilmente identificadas do que o próprio TDAH, trazendo dificuldades para o seu diagnóstico.       

A exemplo da criança e do adolescente, também podemos utilizar questionários de rastreamento do TDAH em adultos.

O ASRS-18 é um instrumento para este fim e foi desenvolvido por pesquisadores em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (39).

A versão a seguir foi traduzida e validada pelos pesquisadores do GEDA (Grupo de Estudos do Déficit de Atenção da Universidade Federal do Rio de Janeiro) (http://www.tdah.org.br/).

Para cada item deve-se escolher o grau que melhor descreve o comportamento do adulto nos últimos seis meses e assinalar o boxe correspondente com um X (só uma resposta para cada linha).

Comece pela parte A (seis questões).

 
PARTE A Nunca Raramente Algumas vezes Freqüentemente Muito freqüentemente

1. Com que freqüência você deixa um projeto pela metade depois de já ter feito as partes mais difíceis?

 

 

 

 

 

2. Com que freqüência você tem dificuldades para fazer um trabalho que exige organização?

 

 

 

 

 

3. Com que freqüência você tem dificuldade para lembrar de compromissos ou obrigações?

 

 

 

 

 

4. Quando você precisa fazer algo que exige muita concentração, com que freqüência você evita ou demora para começar?

 

 

 

 

 

5. Com que freqüência você fica se mexendo na cadeira ou balançando as mãos ou os pés quando precisa ficar sentado(a) por muito tempo?

 

 

 

 

 

6. Com que freqüência você se sente ativo(a) demais e necessitando fazer coisas, como se estivesse ligado na tomada?

 

 

 

 

 

 
Se houve o preenchimento de ao menos quatro boxes vermelhos na parte A, deve-se proceder ao preenchimento da parte B (doze questões).
 
PARTE B Nunca Raramente Algumas vezes Freqüentemente Muito freqüentemente

7. Com que freqüência você faz erros por falta de atenção quando você tem de fazer algo chato ou difícil?

 

 

 

 

 

8. Com que freqüência você tem dificuldade para manter a atenção quando está fazendo algo chato ou repetitivo?

 

 

 

 

 

9. Com que freqüência você tem dificuldade para se concentrar no que as pessoas dizem, mesmo quando elas estão falando diretamente com você?

 

 

 

 

 

10. Com que freqüência você coloca as coisas fora do lugar ou tem de dificuldade de encontrar as coisas em casa ou no trabalho?

 

 

 

 

 

11. Com que freqüência você se distrai com atividades ou barulhos a sua volta?

 

 

 

 

 

12. Com que freqüência você se levanta da cadeira em reuniões ou em outras situações onde se espera que você fique sentado(a)?

 

 

 

 

 

13. Com que freqüência você se sente inquieto(a) ou agitado(a)?

 

 

 

 

 

14. Com que freqüência você tem dificuldades em sossegar e relaxar quando tem tempo livre para você?

 

 

 

 

 

15. Quando você está conversando, com que freqüência você se pega terminando as frases das pessoas antes delas?

 

 

 

 

 

16. Com que freqüência você tem dificuldade para esperar nas situações onde cada um tem a sua vez?

 

 

 

 

 

17. Com que freqüência você se pega falando em excesso em situações sociais?

 

 

 

 

 

18. Com que freqüência você interrompe os outros quando eles estão ocupados?

 

 

 

 

 

 

A interpretação do questionário é simples:

  1. Se existem pelo menos seis boxes vermelhos marcados nos itens 1, 2, 3, 4, 7, 8, 9, 10 e 11, existem mais sintomas de desatenção que o esperado para um adulto.
  2. Se existem pelo menos seis boxes vermelhos marcados nos itens 5, 6, 12, 13, 14, 15, 16, 17 e 18, existem mais sintomas de hiperatividade-impulsividade que o esperado para um adulto.

É bom lembrar que para o diagnóstico do TDAH este instrumento não basta, outros aspectos precisam ser considerados pelo especialista como: idade de início dos sintomas (antes dos 7 a 12 anos), a ocorrência destes sintomas em pelo menos dois contextos diferentes (conjugal, familiar, profissional e social), a evidência de um impacto importante dos sintomas sobre a vida do indivíduo e a presença de outros transtornos que podem confundir o diagnóstico de TDAH (depressão, psicose, etc.).

No adulto é muito freqüente o autodiagnóstico de TDAH, seja através de testes como este, livros, palestras e mídias ou ao longo do processo de diagnóstico e tratamento dos filhos.

Em 30% das crianças e adolescentes com TDAH em atendimento especializado, um dos pais também apresenta o transtorno.

Uma vez levantada a suspeita é imprescindível a procura ao especialista para confirmação diagnóstica e avaliação da necessidade de tratamento.

É comum a observação de adultos com TDAH que ao longo da vida desenvolveram estratégias para lidar com o problema, mesmo não tendo consciência do diagnóstico. Nestas circunstâncias, muitas vezes não haverá necessidade de um tratamento específico.

 
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Texto extraído do livro Levados da Breca

 de autoria do mesmo autor do artigo

 
 
 
 
 
 
 
 
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