O Significado de Realengo

Dom, 22 de Maio de 2011 15:16 MARCO ANTÔNIO ARRUDA
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cenarealengoRealengo. Adj. 1. Real; 2. Régio. 3. Bras. Sem dono; público.

Ao realengo. Em desordem; entregue às moscas; abandonado (Aurélio).

Com uma população estimada de 236 mil habitantes, Realengo figura na 89ª posição no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano da cidade do Rio de Janeiro.


Passado o casamento real e a morte de Bin Laden, não se fala mais do massacre de Realengo. Seria melhor esquecer?

Ao ouvir o ilustre governador carioca se referir ao atirador como um “animal”, tive a convicção de que a questão da Saúde Mental infantil no Rio de Janeiro, como em todo o Brasil, não podia ir bem.


Num passado não tão distante, portadores de esquizofrenia eram queimados em fogueiras acusados de possessão demoníaca pela Inquisição. Não se reconhecia àquela época esse transtorno neurogenético que provoca profundas alterações no funcionamento cerebral, devastando a vida do portador e de sua família. Não se sabia também que a herdabilidade da esquizofrenia é altíssima, em torno de 0,8 (basta lembrarmos que estatura, a característica humana de maior herdabilidade, tem valor 1).

 

Qual a correlação de fatos aparentemente tão diversos?

Ao tratar o rapaz, portador de transtorno mental, como animal, o governador deixa claro sua absoluta ignorância em Saúde Mental, bem como sua total incapacidade de gerir ou tomar decisões nessa área. Sua atitude o remete à antiga instituição.

O rapaz, filho de mãe esquizofrênica e com um comportamento absolutamente atípico desde a infância, passou despercebido, não apenas pelo porteiro da escola de Realengo, mas por todos educadores, familiares e vizinhos, enfim, pela sociedade como um todo. Ele e todas as crianças mortas no massacre não tiveram a sorte de alguém capacitado em Saúde Mental infantil cruzar o seu caminho, identificá-lo na multidão e jogar a bóia salvadora.

Falo em sorte, pois dela dependemos ao vivermos numa sociedade cada vez mais violenta e sob a tutela de um estado cada vez mais indiferente à Saúde Mental da criança. Não ficaria admirado de ouvir um dia esse mesmo governador ou qualquer outra “autoridade” brasileira dizer que tais programas não são prioritários, pois, afinal, toda criança é feliz!

Nessa linha de pensamento me ocorreu que poderíamos tranquilamente atribuir a morte daquelas doze inocentes crianças e a do próprio atirador à incompetência do Estado.

Vale lembrar que consta na nossa cartilha do Projeto Atenção Brasil entre as recomendações para os governantes: “A identificação de pré-escolares em situação de risco para Saúde Mental e desempenho escolar viabiliza intervenções psicossociais precoces. Essas intervenções são consideradas altamente eficazes na literatura especializada e incluem a atuação de profissionais das áreas de Assistência Social, Pedagogia, Psicologia, Psicopedagogia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Enfermagem e Medicina”. “Programas de promoção da Saúde Mental nas escolas. A capacitação e promoção do professorado viabilizando a capacitação de pais em temas como desenvolvimento e Saúde Mental infantil, educação para a resiliência e cidadania”. E, especialmente: “Programas de identificação e intervenção precoce em grupos de risco”.

A doença mental de Wellington Menezes de Oliveira teria sido precocemente identificada e aquelas crianças não teriam sido brutalmente mortas se a Saúde Mental infantil no Brasil não estivesse ao realengo.


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Comentários (4)Add Comment
Simone Jardim Milaré
Pedagoga, cursando Psicopedagogia.
escrito por Simone Jardim Milaré, 10 junho 2011
O que falta na educação é profissionais especializados, os educadores precisam conhecer a realidade de seus alunos como um todo, não se pode falar em educação quando não se tem conhecimento sobre necessidades especiais. Vivemos uma realidade cruel, onde a sociedade e carente de tudo, inclusive de amor. Os pais não entendem as dificuldades dos seus filhos, tem que haver orientação familiar, a saúde e a educação deveriam estar juntas, um diagnóstico precoce é fundamental para o desenvolvimento da criança.
Andréa W. Aragão
Aprender sempre
escrito por Andréa W. Aragão, 25 maio 2011
Infelizmente a fatalidade trouxe a tona reflexões como esta. Trabalho com sala de recursos na rede pública do Distrito Federal, atendendo crianças com necessidades especiais. Enxergamos na escola diversas situações que precisariam ser analisadas com mais cautela, no entanto esbarramos no sistema. A educação não tem parceria com a saúde. Depois de serem orientados pela escola, para que os pais consigam consultas com especialistas, precisam entrar na fila dos hospitais públcos e quase nunca conseguem uma vaga.É necessário instrumentalizar a escola, pois lá aparecem os primeiros sinais.
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Terapeuta Ocupacional e Pedagoga Waldorf
escrito por Pilar Tetilla Manzano Borba, 24 maio 2011
Na minha opiniao o que falta é conhecimento. O professor deveria ter mais disciplinas sobre desenvolvimento infantil e distúrbios do desenvolvimento nos cursos superiores. Impossível reconhecer a "anormalidade", a disfuncao, se nao se conhecer os padroes normais do desenvolvimento infantil. Aos pais, cabe aos educadores os ajudarem a identificar os comportamentos físicos, emocionais e mentais das criancas.




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Psicóloga, Terapeuta de Família - especialista em infância e adolescência
escrito por Rosane Nicolau, 24 maio 2011
A prevenção tem sido o lema da saúde: puericultura, saúde da mulher, saúde bucal e assim por diante. Parece que uma boa parte da população tem despertado para a prevenção, no entanto, quando se trata de saúde mental o estigma, mitos e tabus impedem o entendimento sobre a sua importância. Psicologia e psiquiatria são entendidas como coisas para loucos. Como é possível pensar no ser humano separado do seu emocional. Prevenção em saúde mental é um trabalho para iniciar com a gestante. Se prevenção é pensar em mudar um futuro, é na gestação que podemos iniciar a cuidar do futuro ser humano, o bebê. Qual a estrutura psicológica da mulher gestante, a estrutura psicológica do ambiente familiar onde o bebê viverá? Estrutura orgânica, psíquica, cognitiva, financeira, cultural e assim por diante. É um ato de alienação ignorar o entrelaçamento de todas essas estruturas.

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