Ainda não adaptado ao fuso de seis horas, percebo que o sono aqui tem chegado bem cedo e é difícil continuar dormindo após as 4 horas da manhã. Esse é o horário que escrevo os boletins antes de descer para o congresso. No entanto, essa diferença para menos, que ocorre nas viagens para Oeste, é mais bem tolerada do que os sintomas de jetlag que a maioria de nós apresenta em viagens longas para o leste e que provavelmente sentirei na volta ao Brasil.
O jetlag é uma síndrome bem conhecida e caracterizada por sintomas como mal estar, náuseas, inapetência, irritabilidade e dificuldades com o sono e atenção. Ele ocorre em função de um desajuste temporário do relógio biológico provocado por mudanças de fuso horário. Esse relógio encontra-se no núcleo supraquiasmático, hipotálamo e glândula pineal, estruturas cerebrais responsáveis pela produção de hormônios e neurotransmissores fundamentais para o nosso funcionamento. Na apresentação que fiz no APRENDER 2008 sobre CRONOEDUCAÇÃO revimos o funcionamento desse relógio e suas implicações sobre a cognição e aprendizagem. Você pode baixar essa apresentação no nosso site.
O FDA (Food and Drug Administration), agência americana com funções semelhantes à nossa ANVISA, aprovou o uso da melatonina (de venda livre aqui nos EUA, mas não comercializada no Brasil) para o jetlag. Essa medicação deve ser utilizada por 5 a 7 dias antes da viagem e previne esses sintomas. Outra boa conduta para viagens longas de avião recentemente aprovada pelo FDA e pela comunidade médica internacional é o uso de meia elástica e a ingestão de ácido acetilsalicílico (AAS, aspirina) em baixa dose (100 mg uma vez ao dia) um dia antes até um dia após a viagem. Essa conduta previne a trombose venosa profunda (TVP), evento circulatório com potenciais complicações graves, que pode ocorre em pessoas com mais de 40 anos de idade em viagens longas de avião.
Hoje as atividades tiveram início às 8 horas com a conferência de Bruce Jenner, medalhista de ouro no decatlo nos jogos Olímpicos de 1976 em Montreal. Bruce, celebridade aqui nos EUA, é portador de Dislexia e TDAH e faz apresentações pelo país inteiro divulgando informações sobre esses transtornos e motivando profissionais, portadores e familiares.
Ele descreveu bem o drama dos portadores e seus familiares dando depoimento sobre a sua própria história de vida. Lembrou que na infância o maior medo que tinha era ir para a escola e ser chamado a ler em público. Os fracassos freqüentes rebaixaram sua auto-estima e provocaram isolamento social. Para ele, auto-estima é o fator de maior importância no desenvolvimento psíquico da criança e a melhor arma para a prevenção do uso de drogas na adolescência.
Bruce descreveu emocionado como o esporte resgatou sua auto-estima e autoconfiança, levando-o a ter disciplina e êxito na vida pessoal. Ele encerrou sua apresentação ovacionado por uma platéia de 600 pessoas que o aplaudiram em pé por cerca de 1 minuto.
A exemplo de Bruce Jenner, outras celebridades norte-americanas portadoras de TDAH vêm declarando na mídia sua condição. O último a fazer isso foi Michael Phelps, o nadador que se tornou o maior medalhista olímpico de todos os tempos, sua mãe é atuante participante do CHADD.
Esse tipo de estratégia atrai a atenção das mídias e das pessoas em larga escala dando transparência para o problema, educando a sociedade, exigindo medidas de apoio aos portadores e combatendo os preconceitos.
Quem sabe a moda pega por aqui... Seria esperar demais?
Como vimos em Washington o ano passado, aqui também foram apresentados estudos na área de Neurofeedback, especialmente aqueles endereçados ao treinamento de memória de trabalho em crianças e adolescentes portadores de TDAH. Trata-se de um método terapêutico que vem criando corpo de evidências científicas nos últimos dois anos. Os principais estudos são do grupo sueco de Klingberg e podem ser encontrados no site da Cogmed (www.cogmed.com).
Um dos pontos altos do dia de hoje e, quem sabe de todo o CHADD de Anaheim, foi a apresentação de programas de identificação e intervenção precoce no TDAH. Imagine um sistema educacional com professores capacitados a identificar, a partir do maternal, crianças com perfil de hiperexcitabilidade e baixa capacidade de atenção? E essa identificação permitir intervenções especiais dirigidas às necessidades dessas crianças? E que tal se esse programa, ao final de 5 anos de aplicação promovesse a total integração dessas crianças com redução absoluta do impacto do TDAH sobre suas vidas?
Pois bem, esses programas já estão em funcionamento nos EUA e produzindo resultados bastante promissores, um exemplo é o COPE (Community Parent Education = educação comunitária de Pais) coordenado pelos “PhDs” Charles Cunningham, Wendy Altamirano e Kimberley Lakes.
Hoje fiz ótimos contatos e já tenho os aceites de palestrantes internacionais para o nosso próximo APRENDER CRIANÇA em 2010. É verdade, pode esperar, o suspense é importante, não teria graça eu já anunciar os nomes agora, não acha?
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