Timidez e Fobia Social na Infância e Adolescência

Article Index

Timidez e Fobia Social na Infância e Adolescência:  fatores de risco e desenvolvimento
bullyingNeste artigo os autores discutem as questões referentes à timidez e fobia social em crianças e adolescentes. A discussão tem como foco a natureza da relação entre os dois constructos, destacando as respectivas analogias e diferenças. As diferentes dimensões da fobia social (fisiológica, cognitiva, afetiva e interpessoal) são consideradas com particular atenção para a esfera intersubjetiva. As relações interpessoais são conceitualizadas como processos circulares cruciais associados com o início e manutenção do transtorno. Palavras-chave: timidez, fobia social, processos interpessoais.

Os Transtornos de Ansiedade (TA) constituem a mais prevalente psicopatologia da infância. Eles podem persistir e se transformar ao longo do tempo e o seu impacto na vida da criança é similar ao observado em adultos (Ardizzone, Galli e Guidetti, 2005). No entanto, a verdadeira prevalência desses transtornos na idade evolutiva (infância) ainda é objeto de discussão dadas as fronteiras incertas entre a ansiedade normal e a patológica. Nos últimos anos vários estudos vêm tentando esclarecer e melhor definir a interrelação existente entre timidez e fobia social (FS). A timidez, comumente considerada um aspecto do caráter individual pode, frequentemente, provocar prejuízos para o indivíduo e assim representar um transtorno significativo (Chavira et al., 2002). Enquanto a timidez poderia ser considerada uma condição não patológica ou na fronteira entre a normalidade e a patologia, a FS é caracterizada por uma ansiedade social patológica, persistente e desproporcional em comparação com a realidade do perigo e as dificuldades representadas pela situação produtora de ansiedade (Neal, Edelmaun e Glachan, 2002).
Uma grande atenção é dada à ligação entre timidez e FS, uma ligação contínua entre ansiedade social normal e patológica e a perspectiva do medo de ser julgado por outros nas suas qualidades e capacidades pessoais em ambientes sociais específicos (Rapee e Spence, 2004).
Eventualmente a timidez pode transformar-se em ansiedade social e até mesmo preencher critérios diagnósticos de FS (Hayward et al.,1999), da qual pode ser um possível precursor (Hirshfeld-Becker et al., 2007).
O objetivo de pesquisa americana recente foi investigar as relações entre timidez e FS e entre timidez e o Transtorno de Personalidade Esquiva (Avoidant Personality Disorder, TPE), tendo sido encontrada ambas as condições em indivíduos “extremamente” tímidos e também em indivíduos “normalmente” tímidos. Os 2002 adolescentes que participaram dessas pesquisaa foram avaliados através de escala específica (a “Revised Cheek and Buss Shyness Scale”; Cheek, 1983) e classificados como “extremamente” tímidos (percentil 90) e “normalmente” tímidos (percentil 40 a 60) respectivamente. Para fins de diagnóstico clínico outros parâmetros foram também utilizados: o SCID (“Structured Clinical Interview for DSM-IV Axis II Personality Disorders”) e o CIDI (“Composite International Diagnostic Interview”). Os resultados destes estudos mostram que um índice desproporcionalmente elevado de FS foi encontrado em indivíduos extremamente tímidos (49%) em comparação com o grupo “normalmente” tímido (18%). No grupo dos “extremamente” tímidos foi encontrado ainda um alto percentual de um dos mais graves subtipos de FS, a sua forma generalizada, encontrada em 36% dos adolescentes desse grupo versus 4% do grupo “normalmente” tímido e de TPE (14% vs 4%). Com base nestes resultados o autor sugere a possibilidade de uma possível evolução a partir da timidez até um quadro de completa disfunção psicopatológica como a de FS específica, FS Generalizada e TPE (Chavira, Stein e Malcarne, 2002).
Na maioria dos casos, crianças e adolescentes tímidos e com comportamentos de esquiva não são considerados em situação de risco, não havendo necessidade de medidas preventivas precoces (Greco e Morris,2001). Por outro lado, crianças e adolescentes portadores de FS apresentam um prejuízo altamente negativo em áreas cruciais do desenvolvimento (social, acadêmica e ocupacional) com sérias repercussões na auto-estima e auto-confiança, podendo levar a quadros de depressão secundária (Wittchen e Fehm, 2003).
A FS é, consequentemente, uma condição que afeta várias áreas da vida do indivíduo: psicológica, afetiva, cognitiva (aprendizado) e interpessoal entre as quais uma influência recíproca pode ser observada perpetuando o transtorno.
 
Back to top