Doenças Infecciosas e Distribuição do QI

Desde a primeira publicação de dados quantitativos sobre escores do QI no mundo, estudos tentam explicar a distribuição global da variação na inteligência. Alguns hipotetizaram que QI é altamente maleável, podendo aumentar, ontogeneticamente, quando as recompensas para a inteligência mais alta aumentam, e com exposição à educação e outros ambientes cognitivamente mais demandantes, como o trabalho não-agrícola.

Em adição, vários pesquisadores propuseram que saúde e nutrição podem afetar inteligência, indicando que o QI nacional médio correlacionou-se, negativamente, com taxas de baixo peso ao nascer e com mortalidade infantil.

Recente estudo oferece hipótese de que a distribuição da inteligência ao redor do mundo é determinada, em parte, pela variação da intensidade das doenças infecciosas. Esta hipótese deriva do fato de o cérebro ser o órgão humano mais complexo e custoso. Em recém-nascidos, o cérebro demanda 87% da reserva metabólica corporal, 44% na idade de 5 anos, 34% na idade de 10 anos e 23% e 27% para adultos masculinos e femininos, respectivamente. Assim, se um indivíduo não pode obter essas demandas energéticas enquanto seu cérebro está crescendo, e se desenvolvendo, o crescimento cerebral e a estabilidade evolutiva sofrerão, o que faz com que, nutrição seja vital para altos graus de desenvolvimento mental, haja vista que, crianças mal nutridas têm cabeças menores, cérebros menores e menor inteligência psicométrica do que crianças adequadamente nutridas.

Logo, do ponto de vista energético, um ser humano, ao desenvolver-se, terá dificuldade de edificar um cérebro e lutar contra doenças infecciosas ao mesmo tempo. Por quê? Porque ambas são tarefas metabolicamente muito custosas. Usando medidas do quociente médio de inteligência nacional e correlacionando-as com os anos de vida perdidos devido a doenças infecciosas, esse estudo mostrou dados muito sugestivos. Primeiro: a correlação entre QI médio e prevalência de parasitas entre nações variou de -0,76 a -0,82. Em adição, indicadores nutricionais correlacionaram-se com QI nacional médio (-0,72). Mas, esta relação não foi significativa quando efeitos das doenças infecciosas foram removidos. Dado o custo energético da doença infecciosa, indivíduos que são infectados com parasitas podem ser mais prováveis de serem afetados por deficiências nutricionais. De modo análogo, indivíduos que estão sofrendo de deficiências nutricionais podem ser menos hábeis de constituir um sistema auto-imune eficaz.

Finalmente, a variável doença infecciosa permanece o maior preditor do QI médio nacional quando temperatura, produto doméstico bruto per capita, e outras medidas de educação são controladas. Portanto, políticas públicas que extinguem a prevalência de parasitas, certamente, podem elevar o QI médio das nossas crianças.

 

José Aparecido Da Silva, Professor da USP-RP*

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