O Plantão do Maurão informa

Não havia hóspede que não reparasse naquele homem negro, alto e forte. Ao vê-lo com a guia pra lá e pra cá no coquetel oferecido pelo Hotel Brasil de São Lourenço/MG, fui correndo prestar-lhe ajuda. Afinal, sou pós-graduado em Educação Inclusiva e preciso fazer alguma coisa com isso. Kkkkkkk. Pobre Maurão. Pobre ilusão.

O ceguinho chama-se PCS e de “ceguinho” não tem nada. PC é deficiente visual desde os 12 anos, consequência de um sarampo. Naquele instante percebi minha mediocridade. PC não queria meus favores altruístas. Nada disso. Só precisava saber qual era a jarra com vinho branco e qual a de vinho tinto porque ambas eram iguais em formato e ele queria vinho tinto. A partir daí PC me ganhou. Mostrou atitude, simpatia e independência.

AUTONOMIA, a palavra mais importante do universo inclusivo. E, à minha miopia cerebral PC fez ver, por desenvoltura, que as pessoas não estavam reparando nele. Todos estavam admirando aquele cara que, como muitos, poderia estar revoltado com a falta de um aparato tecnológico adequado ou à espera de um pessoal altamente especializado para atendê-lo.

Qual nada, PC conversou com todos, ficou amigo dos simpáticos e atenciosos colaboradores do Hotel e participou de todos – repito, todos! – os eventos da programação esportiva, social e cultural da temporada. Só de vê-lo fazer as coisas, juro que cansei.

PC tem 56 anos, mora em Rezende/RJ e é formado em Fonoaudiologia com pós em Psicopedagogia, área em que atuou até se aposentar, no meio do ano passado. Só que ainda está na ativa porque não há ninguém à altura para ocupar seu lugar.

Ainda jovem, tornou-se revelador de Raios-X. Em sua primeira investida profissional, foi barrado pela diretoria do hospital porque um cego não poderia exercer tal atividade. Uma médica que o conhecia, deu-lhe crédito, assinou embaixo e PC deu conta do recado com posteriores reconhecimentos de quem o havia preterido. Esse “causo” ele me contou quando perguntei a ele sobre a importância do deficiente tomar a iniciativa diante das coisas que deseja. Ele concordou comigo, mas observou que há necessidade de se abrirem oportunidades. “A primeira resposta é sempre um “não” bem dado. É preciso que se abram as portas pra que as pessoas com deficiência possam mostrar a que vieram”, diz ele com precisão. E continua: “tendo oportunidade, o deficiente visual tem que lutar por si e mostrar seu valor. Ser o melhor naquilo que faz. Não pode vacilar. Eu pude estudar porque minha família tem estrutura suficiente para entender que eu precisava voar sozinho”.

Sua formação básica o ajudou muito a dar suporte a esse comportamento assertivo diante dos obstáculos gerados pelo preconceito. PC cursou o Instituto Benjamim Constant/RJ, sua “escola de vida”, como ele gosta de dizer. Não é contrário à escola regular para todos, mas não da forma com que é praticada. “Não há estrutura física nas escolas e o pessoal não é preparado para receber a pessoa com deficiência. A escola especial ainda é o lugar mais forte e adequado para acolher a gente porque não nos deixa à margem do aprendizado e da socialização, como acontece na escola regular. É uma questão de respeito”.

Preciso explicar?                                                  

Eu teria conversado com PC até o sol raiar, mas não poderia ser chato a ponto de tirá-lo do convívio com os hóspedes ou roubar seu tempo de se divertir com a programação que a noite ainda nos reservava.

De qualquer forma, pessoal, PC mostrou, com atitudes, que a inclusão requer coerência. E arrebentou a boca do balão demonstrando todo o seu potencial humano, tomando a iniciativa de se incluir numa comunidade que só estava ali para se divertir. Não ficou esperando pelo intérprete para a aula de hidroginástica, não aguardou pelos sinais sonoros para andar pelos corredores e salões do hotel, não aguardou por instalações especiais em seu quarto. Ele fez parte. Se fez parte.

A ele, meu abraço e minha admiração.

Aos amigos, a certeza de que o exemplo desse homem é o caminho para a inclusão coerente.

Aos adoradores dos discursos que não dão em nada, o recado do poeta: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

O Plantão do Maurão pode voltar a qualquer momento com outras coisinhas mais.

Abraços.

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