Sem breque, não dirija

NaoDirija.jpgComparando a um carro, é fácil prever que quando o breque cerebral não funciona as conseqüências podem ser trágicas. Os circuitos cerebrais que funcionam como breque do nosso comportamento estão no córtex pré-frontal, região localizada imediatamente atrás dos nossos olhos.

Por determinação genética ou lesão, essas células podem não funcionar adequadamente provocando um quadro neuropsiquiátrico denominado Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

No TDAH a força da genética é bem robusta, estudos mostram uma herdabilidade de 0,7 (imaginem que a característica humana de maior herdabilidade é estatura, perto de 1)! No entanto, fatores de agressão ao cérebro em formação dentro do útero materno podem também atuar. O uso de tabaco pela gestante aumenta a chance do feto desenvolver TDAH em dez vezes, álcool vinte vezes e cocaína perto de quarenta vezes.

A falta do “breque” vai provocar manifestações clínicas bem evidentes como a distração (déficit de atenção), a hiperatividade e a impulsividade, já presentes na criança, podendo persistir na adolescência e vida adulta. Sem freio o impacto é certo: 30% das crianças e adolescentes com TDAH repetem ao menos um ano escolar, 45% são expulsos da escola e 35% abandonam os estudos. Crianças com TDAH apresentam um risco três vezes maior de acidentes domésticos e duas vezes maior de traumas, suturas e hospitalizações. Jovens com TDAH apresentam maior risco de gravidez antes dos 18 anos de idade, doenças sexualmente transmissíveis, acidentes automobilísticos e uso-abuso-dependência de drogas.

Em 2004, um amplo estudo realizado nos EUA por Joseph Biederman e seus colaboradores da Harvard, estimou perdas do orçamento familiar da ordem de 77 bilhões de dólares anuais em decorrência do TDAH. Estas perdas referem-se a vários fatores: adultos portadores de TDAH apresentam menor escolaridade, ganham salários inferiores e menos freqüentemente conseguem emprego em período integral do que adultos sem o transtorno.

Como vêem, as repercussões do TDAH ultrapassam os muros da escola e os limites seguros do lar, provocando impactos ao portador, que determinarão ao longo da vida menores oportunidades de realização e cidadania.

Considerando a alta prevalência deste transtorno (cerca de 5% da população infantil mundial), suas sérias repercussões e a existência de tratamento seguro e eficaz, o TDAH definitivamente deve ser encarado como um grave problema de Saúde Pública que merece a atenção da sociedade e de seus dirigentes. Portanto, sem breque, não dirija!

Marco A. Arruda, Neurologista da Infância e Adolescência, Doutor em Neurologia pela Universidade de São Paulo e autor do livro “Levados da Breca”.

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