O Transtorno Autístico:

O Transtorno Autístico: suas comorbidades e complexidade diagnóstica

 

autismo.jpgOs trabalhos de pesquisa sobre a terminologia autística referem que expressão “autismo” foi utilizada pela primeira vez por Eugen Bleuler, na citação do “Oxford English Dictionary”, em uma edição do American Journal of Insanity em 1912, para designar a perda do contato com a realidade de determinadas crianças que não respondiam a estímulos do meio social em que viviam. A primeira descrição clínica do autismo infantil foi realizada por Leo Kanner, em 1943, publicado na revista THE NERVOUS CHILD, em um trabalho intitulado “Distúrbios Autísticos do contato afetivo”. Referia-se a um quadro uniforme, de características envolvendo basicamente um desligamento das relações humanas, de dificuldade na aquisição da fala, estereotipias, resistência a mudanças e de boa memória e de boa aparência. Em 1947 Bender usou o termo esquizofrenia infantil, pois essa autora acreditava que o autismo era uma forma mais precoce de esquizofrenia na citação de DÁQUINA et. al. (2007).

O transtorno autístico foi caracterizado como psicose da infância nessa época na citação de GADIA et. al. (2004). O termo autismo surgiu pela primeira vez oficialmente na Classificação Internacional de Doenças no CID-9 (1975) e esse conceito foi revisado por KRAMER et. al (1979) na qual o autismo foi concebido como um transtorno do desenvolvimento com os sinais e sintomas clínicos semelhantes aos descritos atualmente. O transtorno autístico é hoje chamado ocasionalmente de: autismo infantil precoce, autismo da infância ou autismo de Kanner (DSM-IV-TR, 2003, LAMPREIA, 2003, GADIA et. al. 2004 e SHULTZ, 2005).

O Transtorno Autístico é também denominado de espectro do autismo, refere-se a um conjunto de distúrbios de socialização com início precoce e curso crônico, grau variado de severidade, com alterações em áreas múltiplas de desenvolvimento infantil e da adolescência como: as graves alterações sociais, as severas dificuldades na fala ou da comunicação e os críticos embotamentos de suas expressões afetivas. Os pacientes autistas são alheios aos estímulos ambientais, têm imaginações pobres, dificuldades de abstração e de aprendizagem. Apresentam comportamentos repetitivos e acentuadas resistências às mudanças. A etiologia é desconhecida, o diagnóstico é impreciso, o prognóstico é severo e a evolução desse transtorno é desfavorável e os tratamentos são ineficazes, por isso, ele requer análise exploratória em muitos níveis diferentes do desenvolvimento da criança e do adolescente, como do comportamento à cognição, da neuropsiquiatria à genética, da fonoaudiologia à psicopedagogia, da psicologia à terapia ocupacional e nas estreitas interações interpessoais ao longo do tempo (SHULTZ, 2005 e KLIN et. al. 2006).

A noção de autismo tem sofrido uma série de mudanças ao longo do tempo. Sua denominação, sua definição e seu diagnóstico têm variado a partir da busca de uma maior elaboração conceitual, fruto das diversas pesquisas na área. Contudo, tem sido questionado em que medida essas pesquisas conseguem traçar um perfil mais fidedigno do seu conceito, quadro clínico e etiologia (DSM-IV, 1996, LAMPREIA, 2003 e DSM-IV-TR, 2003 e SHULTZ, 2005).

O DSM-IV-TR (2003) classifica o transtorno autista dentro dos Transtornos Globais do Desenvolvimento, portanto, essencialmente, o autismo é um transtorno do desenvolvimento da pessoa, ou seja, é um transtorno constitucional. As manifestações do transtorno variam imensamente, dependendo do nível do desenvolvimento e idade cronológica do indivíduo. Não existe, em geral, um período de desenvolvimento inequivocamente normal, embora em 20% dos casos os pais descrevem um desenvolvimento “relativamente normal” entorno de 1 ou 2 anos de idade. Citamos como exemplo o desenvolvimento da fala na qual aproximadamente 34% das crianças autistas inicia a pronunciar as primeiras palavras aparentemente sem anormalidade, mas param de falar, repentinamente, entre o vigésimo quarto e trigésimo mês de vida (DSM-IV, 1996). Esse transtorno pode ser descrito desde idades bem precoces, é quando, alguns pais relatam suas preocupações com a criança desde o nascimento, em vista da falta de interesse da mesma pela interação social, assim como a dificuldade de sucção dos mamilos, ela não sorri para os pais, o paciente não olham nos olhos dos genitores e preferem engatinhar ou estar só no chão do que ficar no colo dos mesmos. PIONTELLI (1995) psiquiatria italiana, através da observação direta com ultra-som, relata ter verificado movimentos estereotipados de um feto de 7 meses de gestação, ou seja, o feto do sexo feminino girava o cordão umbilical constantemente, por vezes, tocava a vagina com freqüência, e em outras ocasiões comprimia o dorso da mão contra os lábios repetidamente, ou então, ficava sem movimentos por um longo período de tempo no útero. Esses movimentos continuaram a se repetir do nascimento até os três anos de idade, com exceção ao do cordão umbilical, durante o tempo de observações direta desta pesquisadora, em situação de ludoterapia. Até os 3 anos de idade, a criança girava o cordão da cortina da sala de ludoterapia ao invés do cordão umbilical, coçava a vagina e comprimia ao dorso das mãos contra os lábios ou ficava parada no canto da sala sem qualquer tipo de atividade. A autora levante a hipótese de se observar sinais estereotipados autístico já intra-uterinamente através do exame do ultra-som. É necessário ressaltar que mais estudos com ultra-som deveram ser realizados para comprovar a hipótese de observação de sinais autístico na vida fetal, pois na revisão bibliográfica feita por nós sobre essa metodologia de pesquisa encontramos escassas publicações.

Segundo as descrições do DSM-IV (1996) o autismo é classificado dentro dos Transtornos Globais do Desenvolvimento que abrange um espectro muito heterogêneo, pois, seu diagnóstico se apóia em descrições fenomenológicas em vez de critérios etiológicos, ou seja, déficits na sociabilidade, na empatia, na capacidade de compreensão e percepção dos sentimentos dos outros; déficit na linguagem comunicativa e imaginação; déficit no comportamento adaptativo e na flexibilidade cognitiva. Essas descrições fenomenológicas definem o chamado autismo clássico que o diferencia de outros transtornos Globais do desenvolvimento. Há certa confusão, na literatura, em relação à terminologia – autismo e Transtorno Globais do Desenvolvimento. O termo autismo diz respeito ao autismo clássico, um dos transtornos mais graves do espectro do Transtorno Globais do Desenvolvimento. Deve-se enfatizar que o termo Transtorno Global do Desenvolvimento se aplica em todo o espectro do autismo não significa autismo leve ou nem mesmo descarta o sintoma autístico (VALENTE et. al. 2004).

O CID-10 (1993) classifica o autismo nos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. Julgamos importante resumir a classificação e definição desse transtorno do CID-10 (1993), para mostrar a complexidade diagnóstica e a dificuldade de fazer o diagnóstico diferencial do mesmo: grupo de transtornos caracterizado por anormalidades qualitativas em interações sociais recíprocas, em padrões de comunicação, por um repertório de interesses e atividades restritas, estereotipadas e repetitivas. Essas anormalidades qualitativas são aspectos invasivos do funcionamento do indivíduo em todas as situações, e podem variar em grau. Na maioria dos casos, o desenvolvimento é anormal desde a infância e, com apenas poucas exceções, as condições se manifestam nos primeiros 5 anos de vida. É comum, mas não invariável, haver algum grau de comprometimento cognitivo, mas os transtornos são definidos em termos de comportamento que é desviado em relação à idade mental (seja o individuo retardado ou não). Há algum desacordo quanto à subdivisão desse grupo de Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. Em alguns casos, os transtornos estão associados, e é presumivelmente decorrente a alguma condição médica das quais citamos: espasmos infantis, rubéola congênita, esclerose tuberosa, lipoidose cerebral e anomalia da fragilidade do cromossoma X estão entre as mais comuns. Entretanto, o transtorno deve ser diagnosticado com base nos aspectos comportamentais, independentes da presença ou ausência de quaisquer condições médicas associadas; qualquer condição associada deve, todavia, ser codificada separadamente. Se um retardo mental está presente, é importante que ele também seja codificado à parte porque ele não é um aspecto universal dos Transtornos Invasivos de Desenvolvimento. Autismo atípico é descrito como Transtorno Invasivo do Desenvolvimento e difere do autismo em termos da idade de início ou da falha em preencher todos os três conjuntos de critérios diagnósticos. Assim, o desenvolvimento anormal ou o comprometido se manifesta pela primeira vez apenas depois da idade de 3 anos e pode haver anormalidades demonstráveis insuficientes em uma ou duas das três áreas de psicopatologia requeridas para o diagnóstico de autismo a saber: interações sociais recíprocas, comunicação e comportamento restrito, estereotipado, a despeito de anormalidades características em outras áreas. O autismo atípico surge freqüentemente em indivíduos profundamente retardados, cujo nível muito baixo de funcionamento oferece pouca oportunidade de exibir comportamentos desviados específicos, requeridos para o diagnóstico de autismo; ele também ocorre em indivíduos com grave transtorno específico do desenvolvimento da linguagem receptiva. O autismo atípico, então, constitui uma condição significativamente separada do autismo. Ele inclui: psicose atípica da infância e retardo Mental, (CID-10, 1993).

A taxa de prevalência é de 5 crianças em cada 10.000, com predomínio maior em crianças do sexo masculino na proporção de 4:1 (DSM-IV, 1996). O trabalho de MACHADO et. al. (2003) descreve o transtorno autístico como sendo cinco vezes mais freqüente que a síndrome de Down e três vezes mais freqüente que a diabetes juvenis. Segundo a revisão bibliográfica feita por GADIA et. al. (2004) o autismo é a terceira doença mais comum entre os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, ocorrendo em 40 a 130 casos por 100.000 crianças. SOKOL et. al. (2004) relata que a prevalência do transtorno autístico varia de 30 a 60 em cada 10.000 crianças, comentam que há indício do aumento da taxa de prevalência desse transtorno à medida que o mesmo se torne cada vez mais conhecido pelos pesquisadores. Esse indício é verificado no DSM-IV-TR (2003) que relata que a taxa média de prevalência é de 15 casos por 10.000 indivíduos, com relatos de taxas variando de 2 a 20 casos por 10.000 indivíduos. O DSM-IV-TR (2003) descreve que ainda não está claro se o aumenta das taxas de prevalência relatadas refletem as diferenças de metodologias, principalmente nos critérios diagnósticos entre os DSM-III e o DSM-IV, ou devido aos maiores reconhecimentos do transtorno diagnosticados em pacientes principalmente nos menos gravemente afetados. Acreditamos que com o advento do computador que é capaz de armazenar maior número de dados e esses dados associados às técnicas estatísticas recentes mais aprimoradas vem aproximando as taxas de prevalências mais próximas do real. É importante frizar que os critérios diagnósticos de autismo e transtornos relacionados a ele tem sido modificados e ampliados, constituindo um largo espectro de déficits qualitativo em áreas de linguagem, interação social e comportamental o que faz ampliar o número de crianças diagnosticadas.

As etiologias do transtorno autístico, segundo o DSM-IV (1996), são descritas como possíveis fragilidades genéticas, sem conhecer qualquer tipo de relação causal direta entre essas fragilidades genéticas e os fatores de risco relacionados ao transtorno autístico. Os dados de literatura estabelecem as seguintes correlações: as taxas para o transtorno são de quatro a cinco vezes superiores para o sexo masculino, entretanto, as crianças do sexo feminino com esse transtorno estão mais propensas a apresentar quadro de retardo mental mais severo e autismo mais acentuado em relação aos meninos, ou seja, o prognóstico no sexo feminino é mais grave em relação ao sexo masculino, essa relação é associada ao cromossoma sexual X. Em relação aos fatores genéticos os estudos epidemiológicos de ZIBOVICIUS et. al. (2006) estima que o fator de risco do autismo entre irmãos de uma criança autista é de 3 a 5% o que corresponde a uma incidência 75 vezes maior do que na população em geral. Também ocorre maior risco de várias dificuldades relacionadas ao desenvolvimento comportamental e transtornos psiquiátricos entre os irmãos da criança com autismo na citação do DSM-IV-TR (2003). Em relação aos gêmeos a taxa de concordância para o autismo é de 23,5% nos dizigóticos e 95,7% nos monozigóticos. Os estudos com gêmeos evidenciam que esse transtorno é o que mais fortemente está ligado a possíveis causas genéticas entre todos os transtornos neuropsiquiátricos, indicando assim, forte base genética para esse transtorno, embora, o modelo de transmissão genética ainda é desconhecido (GUPTA et. al. 2006).

Os estudos de genoma têm encontrado os sinais mais fortemente positivos de correlação com autismo nos cromossomas 2, 7, 1 e 17, particularmente em 2q e 7q, e de maneira menos importante nos cromossomas 1, 9, 13, 15, 19, 22 e X72-74. A correlação entre os cromossomas 2 e 7 e autismo é particularmente robusta quando somente se estudam autistas com déficits severos de linguagem. Outros estudos têm descrito possibilidades de associação entre autismo e duplicações citogenéticas do braço proximal do cromossoma 1586-90. Nessa mesma região encontram-se as deleções responsáveis pela síndrome de Angelman que está associada ao autismo. Apesar do grande interesse despertado pelos trabalhos científicos em genética, os dados relativos ao genoma associado ao autismo têm sido inconsistentes (GADIA et. al. 2004).

Outras condições fisiopatológicas são relacionadas com esse transtorno: as doenças infecciosas como a rubéola congênita e a taxa alta de autismo; as lesões intra-uterinas sofridas pelo feto autista em conseqüências de vacinações que provocam disfunções neuroquímicas no mesmo ou substâncias medicamentosas usadas pela mãe durante a gestação como a misoprostol; os fatores imunológicos que possivelmente afetam o desenvolvimento do SNC da criança autista; e também as freqüentes infecções dos ouvidos que são relacionadas a alta taxa de prevalência do autismo infantil (LAMPREIA, 2003). Portanto o autismo é considerado um transtorno com aspectos genéticos, neuropsiquiátricos e imunopsiquiátricos. Todas estas ocorrências podem estar relacionadas com a peculiaridade de cada individuo, pois os quadros clínicos neste transtorno são diferentes em muitos aspectos (BRASIC et. al. 2006).

O autismo tem sido considerado, até então, um transtorno com etiologias múltiplas em conseqüência dos distúrbios do desenvolvimento comportamental muito heterogêneo e várias doenças associadas. Essa heterogeneidade dificulta o pareamento entre grupos o que limita avaliação dos resultados de pesquisa (HALL et. al. 2003). Até hoje o transtorno autista carece de maiores explicações médicas para seu aparecimento e ele não parece ser um transtorno adquirido em sua essência. Por isso, estudos em bioquímica, em genética, em neuroimagem anatômicas e funcionais devem ser realizados para ajudar no esclarecimento das causas do autismo (GADIA et. al. 2004).

O trabalho de investigações cientifica de KLIN et. al. (2006) relata as dificuldades em estabelecer limites entre as crianças com autismo e crianças com quadros clínicos neuropsiquiátricos sem o sintoma autístico como as Deficiências Mentais, os Transtornos Desintegrativos da Infância, os Transtornos Invasivos de Desenvolvimento não Específicos e a Síndrome de Rett. O transtorno de Asperger que geralmente não apresenta atraso do desenvolvimento da linguagem, que tem QI igual ou maior que 70, e apresenta incapacidade social, de compreensão ou percepção dos sentimentos do outro, falta de flexibilidade e interesse limitado, é por isso, geralmente diferenciado do transtorno autístico. O transtorno de Asperger não é classificado como autístico se não são satisfeitos os critérios para o diagnóstico do transtorno autista. O DSM-IV-TR (2003) torna mais fácil entender cada um dos Transtornos Globais do Desenvolvimento, mas deixa dúvida quanto o transtorno autístico e a síndrome de Asperger, dúvida essa, no sentido de que esses transtornos representam entidades clínicas distintas ou se é variantes de um mesmo espectrum.

Outros fatores complicadores do diagnóstico são as doenças correlacionadas a ele que são: rubéola, toxoplasmose, citomegalovírus, síndrome de Willians, síndrome de West, intoxicação por chumbo, cromossomopatias, fenilcetonúria, síndrome de Angelman, esclerose tuberosa, luxação congênita, cegueira congênita, entre outras, o que dificultam estabelecer limites para o transtorno autístico (GADIA, et. al. 2004). A título de exemplo para ilustrar a complexidade diagnóstica deste transtorno citamos a prevalência da esclerose tuberosa no autismo que é de 1-4%, significantemente maior que a prevalência de X-frágil em relação ao autismo, contudo 25% de pacientes com esclerose tuberosa obedecem aos critérios do DSM-IV-TR (2003) para o diagnóstico autista. Esses dados reforçam a importância de se estabelecer subgrupos mais homogêneos possíveis (KERN, 2003 e KLIN et. al. 2006).

Os estudos de neuroimagem podem mostrar anormalidades em vários casos examinados, encontramos na literatura, por exemplo, os estudos replicados de ZILBOVICIUS et. al. (2006) que evidenciam as anormalidades temporais bilaterais do cérebro em autistas. Segundo ROSSIGNOL et. al. (2006), BRAMER (2006), LAINHART JE. (2006) e FLAERTY et. al. (2005) as pesquisa com o transtorno autístico feitas com volumetria baseada em voxeis por ressonância magnética e tomografia computadorizada por emissão de fóton único possibilitam a evidência de hipoperfusão severas nas regiões temporais de crianças com esse transtorno, áreas cerebrais essas relacionadas com a linguagem, cognição e audição. KAYA et. al. (2002) e ITO et. al. (2005) relatam que ocorre a diminuição do fluxo sangüíneo cerebral nessas áreas e que podem estar correlacionadas com vários sintomas comportamentais do autismo, tais como: a auto-estimulação, a estereotipia, o prejuízo na comunicação, a alteração na percepção sensorial e a dificuldade de relacionamento social. Mas nenhum padrão específico ou patognomônico foi claramente identificado para esse transtorno com as técnicas de investigação de neuroimagem segundo WU et. al. (2005), ITO ET. AL et. al. (2005) e SOKOL ET. AL. (2004).

Na ausência de marcador biológico, o diagnóstico e a delimitação dos seus limites ficam em decisões arbitrárias. Os diagnósticos em psiquiatria são de certa forma inconclusivos, pois não se tem, por exemplo, no autismo, exames laboratoriais como na síndrome da imunodeficiência adquirida que identifica o vírus da HIV, para a verificação da sensibilidade, especificidade, valores de predição e acurácia do método de pesquisa utilizado (SOKOL et. al. 2004 e ROBERT 2006). Por exemplo, segundo os estudos de SOKOL (2004) a inteligência é estatisticamente significante em relação às disfunções e medidas do cérebro, sabe-se que os autistas podem apresentar macro ou microcefalia. Os testes psicométricos em autistas revelam que 70% são deficientes mentais, com QI< 70, o que dificulta o diagnóstico segundo o (DSM-IV-R, 2003). Contudo, a inteligência dos indivíduos autistas pode variar desde: comprometimento profundo a os superdotados. Em relação ao potencial de aprendizagem os autistas podem ter baixo nível de funcionabilidade até chegar a se desenvolver de maneira parcial e relativamente independente e apresentar nível intelectual dentro da normalidade (KLIN, 2000). Pode-se verificar que 50% das crianças autistas não falam segundo BANDIM et. al. (2003). Outras têm uma linguagem imatura que é caracterizada por jargão, ecolalia, reversões de pronomes, entonação monótona, enquanto outras são loquazes e com capacidade de argumentação verbal. Alguns autistas têm suas vidas dominadas por maneirismo e rituais psicomotores sem finalidade, são resistentes a mudanças, exigentes em determinadas rotinas, com apego excessivo a objetos inanimados, ao passo que outras dedicam toda sua energia intelectual à busca exclusiva de fatos e de informações sobre tópicos incomuns e altamente circunscritos com finalidades específicas (KLIN et. al. 2006).

È interessante o fato de que a grande maioria dos autistas não se alfabetiza e poucos conseguem ler de forma espontânea sem o processo de alfabetização convencional. Esse continuum de acometimento deu origem ao termo transtorno do espectro do autismo (GUPTA et. al. 2006). Vários sinais neurológicos inespecíficos podem ser observados, por exemplo: reflexos primitivos, atraso no desenvolvimento da lateralidade manual, incoordenação motora fina e grossa que também são fatores complicadores para estabelecimento diagnóstico do autismo (DSM-IV, 1996). As anormalidades de desenvolvimento dos cérebros das crianças autistas são desconhecidas, portanto, impossíveis de serem comparadas com o desenvolvimento normal do cérebro já conhecido (KERN, 2003). Citamos como exemplo de anormalidade do desenvolvimento cerebral o fato de que 13 a 83% dos casos apresentam EEG anormal desde idades precoces, em 33% dos casos ocorrem crises convulsivas que surgem geralmente na pré-adolescência.

As variáveis sócio-econômicas e culturais são significativas para o estudo deste transtorno. O Transtornos Globais do Desenvolvimento, em especial o autismo, envolve uma série de fatores psicossociais inter-atuantes, intra e extra-familiares, os quais afetam a família e a criança com o transtorno ao longo do ciclo vital e conclui-se que sua compreensão não pode ocorrer com base em relações lineares entre possíveis causas e seus efeitos, havendo assim necessidade de pesquisas que investigam as diversas variáveis envolvidas no processo de adaptação da família frente a essa condição crônica (SCHMIDT, et. al. 2003). Estas variáveis não são claramente evidenciáveis nos autistas, pois há dificuldades de métodos ou testes para a quantificação das mesmas nestes pacientes. Sem dúvida é tarefa difícil a homogeneização de subgrupos autistas para a precisão diagnóstica, pois as variáveis ambientais podem ser fatores de risco no surgimento do transtorno, uma das hipóteses é que a predisposição genética pode ser alterada pelos pelas influências ambientais, ou seja, os fatores de risco psicossociais podem alterar o genótipo levando a modificação da expressão fenotípica do paciente (GADIA, 2004 e BRASIC et. al. 2006).

A avaliação diagnóstica dos pacientes classificados no Transtorno Global do Desenvolvimento requer uma equipe multidisciplinar e o uso de escalas objetivas que são de confiabilidade para população brasileira, com capacidade para descriminar autismo e apresentando consistência interna através das analises estatísticas (DÁQUINA et. al. 2007). As técnicas de entrevistas estruturadas existem e devem ser utilizadas para avaliação comportamento das crianças e elas permitem a mensuração dos comportamentos apresentados de maneira a colaborar com o diagnóstico. Na literatura os instrumentos mais citados são: Entrevista para o Diagnóstico Autístico – revisado de LORD et. al. (1994), Entrevista com Pais de Autista de STONE et. al. (1993), ambos devem sem aplicados nos responsáveis pela criança autista. O instrumento Escala de Observação para Diagnóstico Autístico de LORD et. al. (1989) e Escala de Classificação para o Transtorno Autístico de SCHOPLER et. al. (1988) requerem observação direta da criança segundo LAMPREIA (2003). Essas escalas de entrevistas são de ajuda na avaliação dos aspectos do comportamento Autístico mais específicos, devido às dificuldades de comunicação e relacionamento dos pacientes com esses transtornos, muitas vezes, eles não se apresentam disponível para ser avaliados. Por isso, nesses instrumentos é fundamental a observação direta feita pelo especialista e a informação colhida junta a família, principalmente a história de vida do paciente, para se traçar o plano de investigação diagnóstica. As informações colhidas pelas escalas permitem a obtenção de dados a respeito da reatividade do paciente e a informação sobre a possibilidade de uma apreciação mais objetiva (YIRMYA et. al. 1999). As escalas não dispensam o diagnóstico clínico, esses instrumentos permitem a triagem dos quadros clínicos autístico para diferentes investigações do transtorno. A escala de avaliação mais usada é a Escala de Classificação para o Transtorno Autístico – CARS (SHOPLER et. al. 1988) que consiste de uma entrevista estruturada de 15 itens com os pais ou responsáveis de crianças autistas maior de 2 anos de idade. Esta escala classifica o autista em leve, moderado ou severo (GADIA, Et. al. 2004). Além disso, esse instrumento também pode requerer uma observação direta da criança, registros da história de vida do paciente, participação em sala de aula do mesmo, desde que incluam a informação para todos os itens do questionário (LAMPREIA, 2003). Todavia essas escalas são instrumentos úteis para a pesquisa, mas imprecisas para a formulação do diagnóstico clínico, pois as mesmas são entrevistas estruturadas e com questões fechadas que não permitem exploração de novos aspectos que possam surgir durante a semiologia com familiares e pacientes, limitando assim as obtenções de outras informações do espectrum autístico, além daquelas já definidas nas escalas construídas previamente.

É importante considerar a carência de instrumentos de avaliação diagnóstica do transtorno autístico. Comprovações científicas poderão existir daqui alguns anos, porque envolvem uma série de pesquisas feitas com diferentes especialidades que investigam as diferentes alterações e patologias que estão correlacionadas com esse transtorno. Hoje entendemos esse transtorno como um conjunto de sinais e sintomas semelhantes entre si, com diferentes fatores causais, que formam diferentes subgrupos e que são chamados de espectro autista, contudo, devido às outras patologias associadas modificam muito a compreensão diagnóstica quando se estuda cada caso isoladamente, dificultando assim, classificar especificamente o caso estudado dentro do Transtorno Global do Desenvolvimento ou Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. Citamos como exemplo o fato de que atualmente, a comorbidade transtorno de déficit de atenção com hiperatividade e Transtorno Invasivos do Desenvolvimento não podem ser estabelecidos por meios dos critérios de DSM-IV. Entretanto, diversos pesquisadores questionam essa impossibilidade descrevendo quadros clínicos de pacientes que apresentam características de ambos o transtorno, como é descrito na revisão de literatura feita por SEGENREICH E MATTOS, (2007) que concluem que o diagnóstico duplo de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade e Transtorno Invasivo do desenvolvimento, embora não seja corroborado pelo DSM-IV, possam ocorrer como comorbidade e sugerem que essa comorbidade não deva ser desconsiderada principalmente no plano de pesquisas. Concluímos que o diagnóstico de transtorno espectro autístico atual é apenas o início de um processo diagnóstico mais complexo com comorbidades a ser esclarecido no futuro.

Prof. Dr. José Hercules Golfeto
Professor Associado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, docente coordenador da área de atuação da Psiquiatria Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), Psiquiatra da Associação do Amigo do Autista de Ribeirão Preto, Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Fone 39115917.

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