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| De bem com sua memória |
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Se compararmos nossa memória a um cômodo fechado dentro de uma casa, poderíamos dizer que a atenção é a chave que abre a porta desse cômodo e permite-nos entrar, seja para guardar ou retirar algo que nos é necessário.
Sem a chave, caro leitor, a porta não se abre, você não entra e a memória falha. Não adianta chamar o chaveiro, nem pense em arrombar. É vexame na certa. Um compromisso esquecido, algo perdido, um branco total. “O que eu estava falando mesmo?” “Meu Deus, esqueci de ir à padaria?” “Desculpa, não lembro o seu nome!”
Mas não se assuste, pode ser a correria do dia-a-dia, a dispersão, o excesso de estímulos, as multitarefas, a ansiedade ou o humor. Menos provável que já seja o general alemão a sua espreita, aquele tal de Alzheimer!
Nada melhor do que revermos algumas regras básicas da atenção e memória, baseadas no chamado modelo de Posner, segundo o qual o sistema funcionaria em três módulos distintos: rede de alerta intrínseco (detecção de estímulos ambientais, alarme para a sobrevivência), rede de orientação (conseguir mais informações sobre o estímulo que me permitam decidir o que fazer) e rede de execução (estabelecer prioridades, planejar, controlar impulsos, balancear ações e avaliar os resultados).
Entre tantas evidências científicas, seis medidas práticas podem potencializar nossa atenção e, consequentemente, nossa memória: 1º) As emoções ancoram a atenção; 2º) O significado sempre vem antes dos detalhes; 3º) Evite multitarefas; 4º) Faça pausas, seu cérebro agradece; 5º) Repita para lembrar (memória de curto prazo) e 6º) Lembre para repetir (memória de longo prazo).
As emoções ancoram a atenção, por isso, determinados eventos ocorridos ao longo da nossa existência, ficam para sempre guardados em nossa memória: o primeiro beijo, a queda da bicicleta, o gol do título, a torta da mamãe, aquela música e o perfume de uma flor. Esses estímulos emocionalmente competentes, de várias ordens (tácteis, dolorosos, visuais, gustativos, sonoros e olfatórios), quando atraem a atenção através da emoção, ganham lugar definitivo em nossa memória.
Se você precisa se lembrar de alguma coisa, mesmo que corriqueira ou enfadonha, atribua-lhe algum valor emocional. Quer um exemplo? Pois bem, para não esquecer que hoje é seu dia de buscar o pão na padaria, lembre-se que seu filho adora aquele cachorro-quente no pãozinho francês crocante que só você sabe preparar.
Na página anterior vimos a primeira regra: a emoção ancora a atenção que abre as portas da memória, seja para guardarmos, seja para retirarmos o que dela precisamos. A segunda regra é priorizarmos conceitos, idéias centrais e significados, e só depois nos preocuparmos com os detalhes. Comece por um teste, leia a sequência seguinte de treze palavras e números, feche os olhos e repita. Está pronto? Então vamos lá: poltrona, pontos, quatro, tapete, doze, óculos, dezessete, coelho, surpresa, cabeça, vermelho, direção e cachimbo.
Difícil? Quantas palavras você se lembrou?
Agora tente novamente, mas com o auxílio da imaginação e de uma cena que associa conceitos e imagens: em dezessete de abril (17 e 04), qual não foi a minha surpresa ao ver aquele coelho sentado confortavelmente na minha poltrona, fumando um cachimbo e usando os meus óculos. Corri em sua direção, tropecei no tapete vermelho e levei doze pontos na cabeça. Memorize essa cena insólita, feche os olhos e repita todas as palavras e números.
E agora? Aposto como seu desempenho melhorou.
Outra técnica é memorizar elementos por contigüidade visual. Explico. Procure visualizar objetos colocados um sobre os outros. Raquete de tênis, cebola, lápis, batata, limão, macarrão e molho de tomate. Imagine a cebola sobre a raquete de tênis, com uma extremidade do lápis sinta espetar a cebola e com a outra uma batata, sobre a batata esprema o limão e por cima de tudo jogue o macarrão e despeje o molho de tomate.
Que delícia, hein?!
Faça o teste, você verá que a visualização dessa sequência ilógica ajuda a criar um todo, uma imagem, uma cadeia de conceitos que é mais facilmente recordada que as partes isoladas.
John Bransford, Professor de Psicologia e Educação da Universidade de Washington em Seattle e nomeado como uma das cem personalidades mais influentes da área de Educação no século XX, em seus estudos destaca a importância da priorização dos conceitos centrais sobre os periféricos nas práticas pedagógicas. Para ele, mais importante do que o estudante saber fórmulas ou listas de fatos relevantes para determinado assunto, é organizar esses conhecimentos em torno de conceitos centrais que irão guiar seu pensamento e instigar a curiosidade, permitindo a expressão livre da sua criatividade.
Comentando sobre a Educação no século XXI, o Professor Bransford diz: “Eu acredito que o futuro da Educação é brilhante! Nós estamos começando a desvendar os mistérios do cérebro e como se processa o aprendizado. Nós, hoje, podemos capacitar os Professores a utilizar esses conhecimentos para acelerar o processo de aprendizagem tornando essa profissão uma combinação de Ciência e Arte na criação de um mundo melhor para a humanidade”.
Para ficar de bem com sua memória, vimos a importância da emoção e das idéias centrais, antes dos detalhes. Outra regra fundamental é que o nosso cérebro não desempenha bem multitarefas. Talvez nesse exato momento você esteja nessa condição, lendo a Gazeta, de olho no fogão, lembrando do filho que foi para a folia ontem à noite e, por fim, esperando as visitas para a macarronada desse domingo de carnaval.
Nos dias de hoje todos nós, em algum grau, somos obrigados a funcionar no módulo multitarefas. Quais as conseqüências disso? A memória falha, a atenção fica dividida em vários alvos, esquecemos de compromissos, não nos lembramos de coisas banais.
O cérebro é capaz de desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo, como andar e falar, tocar um instrumento com ambas as mãos e tantas outras, mas prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo é como, de uma só vez, assoviar e chupar cana, não dá. Podemos até tentar, mas as pesquisas em Neurociências comprovam que só conseguimos prestar atenção em uma coisa de cada vez e de forma seqüencial e hierárquica.
Outro dia entrei no quarto do meu filho (com a devida autorização, é claro), e percebi que ao mesmo tempo em que ele ouvia seu iPod, estavam abertas umas dez janelas no computador, meia dúzia de conversas simultâneas no MSN, programas baixando músicas da internet e o Explorer exibindo a Chapada Diamantina! É a geração multitarefas.
A sociedade moderna imprime o mesmo ritmo sobre nós, basta ver alguns canais de TV que além da notícia veiculada pelas imagens e som, exibem outras informações no rodapé. Outro canal, especializado em economia, não tem dó do espectador, são numerosas janelas exibindo uma imensidade de dados que correm pela telinha nas mais vertiginosas direções. O celular e outro fator distrator, um dos principais responsáveis pela interrupção da nossa atenção, seja nas conversas, no trânsito ou agora mesmo durante essa leitura. Alô!
É possível que “esse jeito multitarefa de ser” explique também outra situação bastante frequente e desagradável nos dias de hoje. Pare e observe reuniões sociais, algumas pessoas são incapazes de escutar, são extremamente desatentas, quase autistas. Dão início a conversas paralelas, oblíquas e até perpendiculares e aos poucos sentimos estar naquela torre, sim, a de Babel.
Tempos modernos, concordo, mas não se esqueça que os nossos cem bilhões de neurônios levaram pelo menos dois milhões de anos para se organizar e por isso são bastante exigentes, ávidos por informação, desde que cada uma de uma vez.
Na página anterior procurei te convencer de que o cérebro não consegue assoviar e chupar cana ao mesmo tempo, pelo menos quando o assunto é memória. Conseguimos realizar multitarefas em vários outros sistemas cerebrais, mas atenção e memória são vias de mão única que requerem uma informação de cada vez.
Outra dica para “turbinar” a sua memória é saber fazer pausas. E pausa não é algo fácil de fazer, requer uma boa dose de autocontrole e treinamento.
Quando penso em pausa me lembro de gansos e patê de foie gras (sig. fígado gordo), iguaria da culinária francesa que ilustra bem como nosso cérebro processa a informação.
Essas pobres aves são superalimentadas para desenvolverem esteatose, que é a deposição excessiva de gordura no fígado. Para que o produtor consiga o feito, utiliza anéis de metal que são encaixados no bico do animal após a superalimentação, impedindo que regurgite o conteúdo forçosamente ingerido.
Quando nosso cérebro é exposto a um grande volume de informação e sem direito a pausas, ele sucumbe, e o excesso é inevitavelmente desperdiçado. Ao contrário dos gansos, o cérebro não pode ser superalimentado, ainda que seja a vontade do seu proprietário.
Vejo esse excesso de informação em todos os lugares: outdoors (e a gente ainda passa correndo!), comerciais de TV e rádio, anúncios na mídia escrita, palestras e, especialmente, nos bate papos.
É obvio, mas é preciso insistir, tente recordar a seguinte sequência numérica: 3,5,8,23,48 e 65. Repita por favor.
Agora tente recordar essa outra, dando uma pausa de 5 segundos entre um número e outro: 4 6 9 11 25 79. Pronto?
Agora tente repetir.
Tenho certeza que seu desempenho foi melhor com as pausas, tanto mentais quanto visuais que, intencionalmente, usamos aqui.
Então o que fazer?
Se você é quem fornece a informação, forneça-a mastigada, selecione o que você acha relevante para o seu ouvinte ou leitor, ofereça pausas, escute, e na primeira oportunidade repita para ter a certeza de que foi bem entendido.
Se você é quem recebe a informação, selecione o que realmente é importante do que não é, despreze as informações irrelevantes, afinal elas podem ocupar desnecessariamente um lugar precioso em sua memória. Faça pausas e procure dialogar internamente, isso ajuda muito. Ao final de cada sessão pare e repita o que você decidiu guardar, mas um conselho importante, faça isso silenciosamente ou alguém pode achar que você, afinal, enlouqueceu!
Na página seguinte tem mais, repita para lembrar, lembre para repetir.
Na sua opinião, aprender e lembrar são sinônimos de um mesmo processo? Hoje sabemos que não, aprender e lembrar são fenômenos distintos, embora interdependentes. Se para lembrar eu preciso antes aprender, para aprender eu preciso antes lembrar de uma série de outras informações já residentes na minha memória e estabelecer comparações e associações entre elas.
Os conhecimentos atuais de como nosso cérebro aprende e memoriza revelam um processo realizado, basicamente, em quatro etapas: codificação, armazenamento, recuperação e esquecimento.
De todas essas etapas, a primeira é a mais admirável, a mais importante e a que menos conhecemos. A codificação é o primeiro contato do cérebro com a informação, seja ela da natureza que for (visual, auditiva, táctil, olfatória ou gustativa), traduzindo-a em impulso eletroquímico que é a linguagem pela qual nossos neurônios conversam entre si.
Sabemos que quanto mais elaborada for a codificação, mais forte será a lembrança (a importância da emoção na memorização) e que a recuperação da informação depende do contexto e do estado em que estávamos quando a codificamos pela primeira vez. Eu explico no final.
Para ficar de bem com sua memória, essas são as regras de hoje: 1) Repita para lembrar, procure se transportar para o ambiente e o estado (alegria, tristeza, atenção, surpresa, descrença, etc) em que você se encontrava quando recebeu aquela informação pela primeira vez, nem que seja só com a imaginação; 2) Use e abuse de exemplos do mundo real, seja para você guardar, seja para repassar uma informação para outra pessoa; 3) A introdução é a alma do negócio! Os diretores de Hollywood sabem muito bem que os três primeiros minutos são essenciais para o arrebatamento da audiência e o conseqüente sucesso financeiro de um filme. Para os profissionais das comunicações, você ganha ou perde a batalha pela atenção do seu público nos primeiros trinta segundos de sua apresentação! 4) O ambiente torna a codificação mais elaborada, portanto, explore o ambiente no momento de codificar uma informação.
Como falei em exemplos, aí vai um muito bom. No final da tarde de hoje, ao comemorar a vitória do Timão e os dois gols do “fenômeno” no famoso Derby Paulista, me lembrarei da final da Copa do Mundo de 2002 quando ele estufou as redes duas vezes, certamente recordarei também, com saudades, de mágicos craques como Sócrates, Rivelino, Marcelinho, Cláudio, Baltazar e tantos outros.
Tem mais na página seguinte
- Tudo bem, eu errei, mas apenas por um travessão!
Quem assistiu ao emocionante derby Paulista no domingo passado pode não ter percebido, mas codificou, armazenou e recuperou informações em sua memória e, se por acaso gosta de futebol, sem necessariamente ser Corintiano, também se emocionou com o gol do Ronaldo.
No processo de memorização e aprendizagem, utilizamos vários tipos de memória.
A memória ultrarápida retém a informação por frações de segundo a minutos. É aquele prazo suficiente para desligarmos o celular e anotarmos o número de telefone que acabaram de nos passar.
A memória de curto prazo é mais duradoura e tem outras características que equivalem, grosseiramente, à memória operacional dos computadores ou memória RAM (memória de acesso aleatório, em inglês). Ela “gerencia a realidade”, mantém sob controle uma série de informações ao mesmo tempo em que processa outras, por isso é também conhecida como memória de trabalho.
A memória de longo prazo, por sua vez, resulta da formação de engramas ou traços duradouros da informação, sob forma eletroquímica e genética, que ficam armazenados nas células nervosas por dias, meses ou décadas. Ela pode ser expressa verbalmente ao recordar um fato (o nome da capital do Amapá) ou um evento (a viagem que fiz a Macapá), ou não verbalmente, como a memória utilizada para executar atos como andar de bicicleta ou tocar um instrumento (procedimentos e habilidades), salivar quando me lembro do bife a milanesa da tia Dina (condicionamentos) ou me lembrar de Albert Einstein quando vejo alguém com a língua de fora (memória priming, adquirida e evocada por meio de dicas).
Após codificar, armazenar e recuperar as informações, o cérebro se ocupa de esquecê-las, respeitando, naturalmente, o seu grau de importância para a nossa sobrevivência. Esse é um processo fundamental que garante espaço na “prateleira”, para que novas e mais importantes informações sejam estocadas.
Quando não descarta de vez a informação residente na memória de longo prazo, ele, sabiamente, a retoca, com o ônus da perda de fidelidade. Dessa forma, podemos inferir que o cérebro nos dá apenas uma visão aproximada da realidade, “pano para manga” em discussões filosóficas, jurídicas e existenciais.
Quem sabe um dia, com meu neto no colo, contarei com entusiasmo e convicção, que naquele inesquecível domingo, Ronaldo guardou dois contra o arquiinimigo Palmeiras!
35T3 P3QU3N0 T3XT0 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R C0M0 FUN610N4 4 M3M0R14 PRIMING QU3 V1M05 N4 53M4N4 P4554D4. EL4 3 4DQU1R1D4 3 EV0C4D4 P0R M310 D3 D1C4S. R3P4R3 QU3 N0 C0M3Ç0 35T4V4 M310 C0MPL1C4D0, M45 460R4 SU4 M3NT3 J4 3ST4 D3C1FR4ND0 0 C0D1G0. P4R4BÉN5!
A memória priming é apenas uma entre as várias modalidades de memória que o nosso cérebro dispõe.
A memória de longo prazo, talvez a menos conhecida de todas, tem características fascinantes, as informações nela armazenadas podem ser recordadas de acordo com dois modelos: o “modelo prateleira” e o “modelo quebra-cabeça” (dizem que o hífen será o grande vilão da reforma ortográfica!).
Determinadas informações são recuperadas da memória de longo prazo de forma reprodutiva, com fidelidade de detalhes, como um produto é checado e apanhado na prateleira do supermercado. Essas informações, no entanto, apresentam prazo de validade e com o tempo começam a deteriorar. Outras informações, por sua vez, são reconstruídas a partir de fragmentos de memória, como na montagem de um quebra-cabeça, uma peça aqui, outra ali e acolá, logo é possível perceber forma e significado incipientes, apesar da aparente inacurácia.
Após alguns minutos ou dias do aprendizado, as informações são colocadas nas prateleiras; com o tempo - nosso rei ou algoz - se transformam em peças de um grande quebra-cabeça.
Essa evolução gradual do específico para o geral, do concreto para o abstrato, do reproduzível para o reconstruído, reflete, para muitos Neurocientistas, o incansável esforço do nosso cérebro de priorizar e organizar as informações advindas de um universo incoerente, aleatório e desorganizado.
Dessa forma, se eu preciso de fidelidade, como consigo voltar a informação para a prateleira? A resposta é dica: incorpore novas informações gradualmente e repita-as em intervalos regulares. Repita para recordar!
Até Goebbels, marqueteiro do Führer (o trema permanece em palavras estrangeiras), sabia disso: "Uma mentira muitas vezes repetida, torna-se verdade”. Infelizmente torna-se verdade e fica para sempre guardada em nossa memória.
Memorizou todas as dicas para ficar de bem com a sua memória? Não? Não tem problema, em outra oportunidade eu repito, dessa vez para você não esquecer mais.

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